Coisas de Mulher

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Ela que sempre gostou de ser mulher e que sempre se orgulhou em dizer que gostava era de homem, hoje acordou contrariada, praguejando contra o mundo. Em meio a duvida por não saber se era um sonho ou o despertador ela acordou apressada, afinal ninguém sonha que tem dor de cabeça, abriu os olhos e lamentou que talvez estivesse de TPM, a dor era tanta que nem conseguiu contar o ciclo, mal sentou na cama e percebeu que sangrava mais que os Starks em Game Of Trhones, sem duvida o ciclo estava se encerrando. Correu pro banheiro com a sensação térmica de uns 3 graus negativos, abriu o chuveiro pra ir esquentando, tirou a roupa com cuidado, sentiu uma pontada no ventre, ” cólica também?” ela pensou.

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Entrou embaixo do chuveiro e o namorado bateu na porta: “Você tem 30 minutos pra ficar pronta e chegar no ponto, não enrola no banho, ou você vai se atrasar e me atrasar também”

Ela quase mandou que ele usasse o outro banheiro, mas o outro banheiro é do outro apartamento, e apesar de morar há mais de seis meses no novo apartamento ainda não se acostumou com um só banheiro e outras abdicações que foi obrigada a fazer.

Passou o condicionador primeiro, culpou a pressa, e antes de tirar o shampoo o João Pedro estava batendo na porta: Mãe, não esquece que hoje é o ultimo dia de aula e tenho que levar alguma coisa pro pic nic junino.

Ela quis chorar, aproveitar o shampoo nos olhos, mas nem isso dava tempo. Enxaguou os cabelos o mais rápido que pode, enrolou se na toalha e correu pro quarto, começou a se vestir mas nada combinava com nada, nem adiantava olhar o varal, ela lembrou que esqueceu de ligar a máquina na noite anterior.

 

Jurou gastar todo o PIS daquele ano em roupas e comprar um look por mês pro resto da vida, dane se a previdência e o armário capsula, não aguentava mais passar frio, não podia mais andar toda descoordenada, até a Emília do Sitio do Pica Pau Amarelo tinha mais estilo e elegância que ela.

Se aqueceu como pode e enquanto preparava um cappuccino, abriu umas latas de leite condensado, um pacote de coco ralado, juntou manteiga e levou ao fogo, mexeu a panela enquanto tomava seu café da manhã, conversava com o gato, ouvia Alabama Shakes, Always Allright que sempre toca no rádio pela manhã e ela gosta de imaginar que é algum tipo de mensagem subliminar para ela.

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Quando colocou o doce no prato para esfriar ela olhou no relógio e viu que se atrasaria bem mais que os 5 minutos de sempre, seria muita sorte chegar antes das nove, lamentou e até ensaiou uma conversa com seu chefe, “eu nunca vou nas reuniões dele, mal ando com tempo de olhar os cadernos, não podia deixar o menino ir pra festa sem levar um doce…”

Passou as instruções de como enrolar o beijinho, pediu pra que não esquecesse o cravo, um em cada doce, não queria parecer uma mãe desleixada, normalmente ela faria um bom e grande bolo, nos bons tempos, não, nos velhos tempos.

Saiu correndo e com pouca blusa, a cólica e a dor de cabeça competiam pra ver qual doía mais, pensou em ligar para o patrão e explicar que não conseguiria trabalhar, mas lembrou de toda a luta feminista para ter direitos iguais e se questionou como poderia querer ganhar tão bem quanto um homem se faltava ao trabalho quando menstruava. Colocou Kings of Leon no celular e caminhou até o ponto imaginando que bom seria se nos dias de TPM e menstruação pudesse tirar uma licença, uns 3 ou 4 dias por mês, com sorte até menos se fosse como hoje uma sexta feira.

Quando saiu do condomínio viu o ônibus chegando no ponto, contrariou recomendações médicas e correu, acenou para o motorista que freou esperando por ela. “Que sorte”, ela pensou, “tomara que eu não infarte só por essa corridinha.”

Mais sorte foi encontrar um lugar vago na janela, tirou o cachecol da bolsa e se enrolou, lamentou por abandonar sua cama quentinha, um bom chá, ouvir musica triste o dia todo, chorar, se consolar com chocolate, tinha que trabalhar, se a situação já estava difícil trabalhando, imagina se começar a faltar, ainda mais por esse motivo. Lembrou outra vez das feministas, ficou revoltada, se não fosse o egoísmo masculino tudo seria diferente, porque ela tinha que ser compreensiva, perdoar e continuar a amar?

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Pensou em queimar soutians, mas só tinha 3 que estavam bons, os outros já estavam velhos demais, nem seria um grande ato, e depois teria um trabalhão pra comprar novos, nunca encontrava do seu tamanho. Se os homens gostam tanto de peitão, deveriam dar de presentes soutians grandes, afinal alguém precisa sustentar enquanto eles não estão segurando.

Tentou relaxar no ônibus e não pensar em nada, nem no atraso. No caminho até o outro ônibus passou na farmácia comprou analgésicos.

Chegou no trabalho pensando em pedir pra sair, mas aguentou, pegou um café na máquina com 3 de açúcar, invejou os homens, ficam bem de jeans e camiseta, se está frio apenas vestem uma jaqueta, qualquer sapato está bom e eles nem menstruam. Não há salario igual no mundo que equivalha a isso.

Se arrastou com dor até a hora do almoço, passou numa loja de roupa procurando um casaco pra usar no dia seguinte, afinal um evento de moda pede alguém pelo menos com roupas coerentes, nada que ela fosse conseguir com suas 12 peças de roupas. sendo 5 calças jeans. Não sobrava muita coisa pra esquentar e ornar como diria sua avó.

 

Se preocupou em ter que carregar o John Snow  o evento todo, John Snow é nome carinhoso que ela deu pro seu casaco, já que a previsão do tempo previu muito frio de manhã e a noite e muito calor durante o dia.

Correu almoçar, afinal já tinha perdido 15 minutos do seu horário de almoço tentando encontrar algo que coubesse nela e no orçamento, se ela já odiava comprar roupas nos dias normais, hoje definitivamente não era o melhor dia pra isso.

Trocou o almoço por um pote de fondue de chocolate com morango, dane se a saúde, dane se a pressão alta.

Voltou para o trabalho ainda com dor, mas firme no seu propósito de trabalhar o dia inteiro e por mais quatro horas e meia tentou não pensar na louça pra lavar quando chegasse em casa, listou na sua mente tudo o que precisava ser feito para conseguir sair no dia seguinte: sombracelha, pintar as unhas, trocar os brincos, separar a maquiagem, os cartões de visita, levar algo para anotar, carregador de celular, câmera fotográfica e muito bom humor pra aguentar toda a pressão do evento e conseguir extrair todo o conteúdo possível sem se deixar abater pela moda, consumismo e superficialidade que fazem ela se sentir menos mulher nesses dias em que ela só queria ter acordado homem.

Quem sabe com sorte e um pouco de boa vontade talvez encontrasse um colo e  uma comédia romântica para encerrar o dia.

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Uma resposta

  1. Show. Super. Amei! Levei.

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